quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Sobre o Céu...

         Se alguém pedisse a uma criança para descrever o céu provavelmente ela diria que é um local colorido, cheio de brinquedos e doces; um urubu se pudesse dizê-lo certamente afirmaria que deve ser um lugar cheio de podridão. Não importa o quão diferentes sejam o céu e a terra, porque tudo se resume no observador. Por prudência, melhor não esperarmos ver no céu mais do que vemos na terra.
       O meu céu não é eterno, mas breve. Nele, eu procuraria para uma boa conversa Schopenhauer ao invés de santos e anjos. Além de admirar o filósofo detesto fila...

Uma reflexão poética, sem deleite. Sopa e água...  
  
Preciso salvar-me com urgência!
Desatar-me da demência que escraviza.
Abolir as carnes; os vinhos; o desejo;
Ficar cego às aparências e não incorrer na arrogância;
Limitar o ouvido as preces; não ceder às tentações;
Esquecer-me do corpo e dos excessos.
E de resto - do que sobra- salvar-me...
Mas, e se John Donne estava certo?
Estarei salvo em algum céu a deleitar-me com sopa e água,
Trajado em branco e ouvindo harpas?
Um anjo insípido e assexuado!
Para isto nos recomendam tantos esforços?
Preciso salvar-me! Só não sei das virtudes ou dos vícios;
Mas, se na terra somos mais corpo que espírito,
E depois da morte não se sabe,
Por que infligir a cada prazer um sacrifício?

 (John Donne, poeta inglês. Autor  de “Elegia”).

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

"O Rio de Janeiro Continua Lindo..."

O Rio nunca esteve no meu roteiro de viagem. Minha falta de interesse pela cidade maravilhosa é muito anterior à guerra pela posse de suas favelas. Nunca fui com a cara do Rio, com a sua energia excessivamente pulsante. Homens e mulheres sarados demais; sexo demais; samba demais; agora, tiroteio demais. Mesmo para alguém que deteste a rotina, o Rio é muito.
Desde a instalação da família real no Rio de Janeiro, em 1808, a cidade passou a ser a favorita do império. Mais adiante o nosso cartão postal. Um dos poucos motivos para um europeu despencar da civilização para este fim de mundo. O Rio com suas belas matas, mulatas, e jovens prostitutas que saem quase pelo mesmo preço de uma replica do Cristo Redentor.   
          Toda violência que assistimos neste momento: criminosos indo de um lado para outro; incontáveis homicídios em razão do controle do tráfico de drogas; latrocínios; estupros; não é um fato específico do Rio de Janeiro, mas ao contrário, é uma tendência nacional. 
           O Rio só continua sendo a nossa vanguarda, como tem sido desde a vinda da família real; cabendo-lhe retratar e realçar as nossas tendências em primeira mão. Não gosto do Rio, mas justiça seja feita, a cidade não é mais do que um superlativo de como funciona, ou não funciona, quase tudo no país. Portanto, não podemos pegá-la para cristo, depreciá-la como querem alguns.
          Se no passado ela foi eleita pelos nobres portugueses para representar a sua essência, na qual se incluíram os conchavos, maracutaias, a leviandade com o compromisso e a ética, a corrupção escrachada, enfim, a imbecilidade de uma corte fanfarrona, mística e bravateira. Hoje, a cidade maravilhosa continua sendo esta mesma vitrine. Ela expõe as mesmas coisas pelos mesmos motivos. A diferença é que a corte misturou-se aos nativos e escravos e agora tem endereço no Distrito Federal.
Aquele abraço! 
   
(Este texto foi motivado pelos episódios de incêndios criminosos direcionados aos ônibus  que faziam o transporte coletivo da cidade do Rio. Na época,  o Bruno me escreveu que peguei pesado. Pode ser, mas ele continua valendo... É que os criminosos pegam muito mais.) 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Segura a Onda...

Só existe uma coisa mais sofrível do que amar sem ser amado: é ser amado por pessoas que não seguram a onda. Embora a nossa espécie seja muito hábil em dissimular sentimentos, as mulheres em especial, alguns deles são difíceis de acobertarmos.  O desejo sexual, a repulsa, a paixão ou o descaso, podem ser facilmente captados.  O que sentimos em nosso intimo revela-se em nossos gestos e expressões corporais, ainda que tenhamos um discurso oposto a eles.
Somos traídos por nossos desejos ou pela falta deles. Assim, observe o outro. Não só o que diz, mas principalmente como diz. As pessoas precisam parar de buscar alguma justificativa para desacreditar o óbvio. Alguns, os mais obcecados, tendem a considerar o menosprezo um tipo de interesse enrustido. Não é!
Menosprezo significa que o outro não dá a minima para você! E vá por mim: quanto mais insistir, pior fica... O menosprezo provavelmente vai virar antipatia. Você será chamado de “chiclete”; de “sem noção”; alcunha dos insistentes de plantão que não fazem ideia do quanto suas investidas são desagradáveis. 
Estes utilizam a renitência como estratégia para alcançar o amor. O amor não se impõe, se conquista! Mas é importante que os meios não sejam indignos para que o fim não seja invalidado. 
Amar sem ser correspondido acontece a todo mundo.Quando constatado, o único remédio é admitir que  é algo natural; que vamos sofrer por algum tempo, mas que há muitas pessoas e possibilidades no mundo. Os nossos sentimentos são nossos! Os outros não têm a menor obrigação de corresponder a eles. É mágico quando dois afetos coincidem, mas é trágico quando forçamos a coincidência.
Não importa quão interessado ou apaixonado você esteja! Se o outro lhe disser reiterados “nãos”, venham eles da boca, dos gestos, do olhar, ou de quaisquer atitudes, ponha a sua viola no saco, dirija-se a uma praia bem animada... Vá surfar! E tente segurar à onda!  

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Ser ou Não Ser, Eis a Cura Gay...

Os grotescos homicídios em massa perpetrados pela Alemanha nazista começaram com meras restrições. As ideologias mais perversas, religiosas ou não, sempre se impuseram paulatinamente. A liderança alcançada através do fanatismo possui um modo de agir similar ao dos répteis: é disciplinada e estrategista.
No mundo rasteiro destes humanos a coação se deu em doses progressivas. E os frascos venenosos foram sempre revestidos com o rótulo da boa causa. Às vezes alegaram a superioridade da sua raça ou ideologia; às vezes julgaram-se os eleitos de uma divindade.
A polêmica decisão de um juiz do DF que reconheceu a possibilidade da reversão da sexualidade, considerando via homossexual para a heterossexual, foi movida por uma convicção que amplia a liberdade do cidadão ou contém apelos fascistas?
 Antes de discorrer sobre esta questão é preciso fazer uma análise simplista: A palavra reversão significa retorno, ou seja, volta ao que era desde o inicio. Logo, ninguém poder ser- menos ainda voltar a ser- o que nunca foi.
 Imagino que estes psicólogos favoráveis à “reversão” estejam convictos de que ninguém nasce homossexual, o que equivale: todos os seres humanos são essencialmente heterossexuais. Suposição que não possui fundamento científico; sequer empírico, já que os milhões de homossexuais em todos os continentes, em todas as épocas, nos permitem observar e concluir que se dá justamente o contrário.
Não dá nem para dizer que é culpa da Rede Globo, pois ela não existia quando um dos nossos ancestrais primatas deixou claro que preferia a companhia de outro macho a de uma fêmea que roçava nele insistentemente.
Negar a homossexualidade como uma das várias possibilidades congênitas da nossa espécie é no minimo admitir que a heterossexualidade é extremamente vulnerável a fatores extrínsecos, e, pior, inexplicáveis.
Mas, não se trata de aceitar os fatos ou de negá-los. Trata-se de como os psicólogos irão “reverter” os seus pacientes sem infligir-lhes medo e culpa por sentirem o que sentem. Em crianças e jovens isto poderia ser devastador. Sobretudo, porque todos sabem que muitos grupos religiosos se enriquecem justamente à custa do medo e da culpa alheia.
Voltemos à questão: fez bem o juiz em entender que impedir psicólogos de oferecerem tratamento a eventuais pacientes que acreditem na “reversão” da sexualidade é uma restrição? Sim, fez bem. Desde que alguém, maior de idade, vá dormir hétero e misteriosamente amanheça homossexual, sentindo-se desconfortável com seus inusitados desejos; desde que o “tratamento” não inclua métodos que comprometam a sua saúde física e mental; desde que a “cura” não seja patrocinada pelos cofres públicos... E, principalmente, desde que não seja motivada por grupos que visam privar pessoas de exercerem seus direitos, emoções e afetos, quando não coincidentes com as verdades que pregam.
Do contrário, a sociedade brasileira caminhará para o segundo passo da estratégia.  Ele será a imposição do tratamento. No caso de recusa ocorrerá o segregamento e a humilhação; após, a restrição de direitos, que incluirá a censura, o fechamento de bares, boates, restaurantes...; depois, um pouco mais a frente, se dará a criminalização de todas as práticas consideradas imorais; por fim, a condenação do infrator tanto no céu quanto na terra. Exagero? Talvez... Mas, muitos judeus acreditaram que se abrissem mão de alguns direitos seriam deixados em paz.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Caetano Veloso e o Superbacana

Caetano Veloso está preocupado com a destruição da Amazônia. Ele gravou alguns vídeos apelando para que todos os brasileiros comprem a causa. Sou capaz de apostar que ele está tão interessado na preservação das árvores da Amazônia quanto em desarvorar Temer da condição de Presidente, mas, não vem ao caso! Também não tenho apreço pelo peemedebista... Já pelo cantor e poeta, sempre nutri alguma simpatia. Fico feliz que ele esteja fazendo apologia a “não destruição”.
Talvez Caetano possa rever o apoio que tem dado a Lula. Afinal, o governo do petista ajudou com dinheiro público a destruir 916. 445 km², que corresponde à área da Venezuela. Sem contar os desplantes no Brasil. Tomara que ele esteja fazendo as conexões, do contrário, poderia parecer que os nossos índios merecem mais respeito que os cidadãos venezuelanos. Não creio que seja a opinião dele...  
    Devemos preservar a Amazônia não porque seja nossa, mas, exatamente porque não é. Ela pertence ao planeta; a todas as espécies; as gerações presentes e futuras. E acima de tudo, pertence a si mesma. Usar o slogan “A Amazônia é nossa” para defendê-la de maus exploradores não é uma boa, pois a posse comumente gera amplos direitos sobre a coisa possuída. E depois, foi o que Lula, o superbacana, disse sobre a Petrobrás. Deu no que deu!

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Sobre a Futilidade...


“Vão-se os anéis e não fica nada.”

Quando “aparecer” torna-se sinônimo de “existir” significa que adoecemos de vaidade. Os jovens, em especial, têm cometido vários crimes para aparecer nos jornais, na TV, nas redes sociais. A vaidade desmedida rouba-lhes a existência.      

        Há um acentuado desencontro entre o que desejamos, seja por estímulo ou tendência, e as nossas reais potencialidades. Querer não é necessariamente poder, mas todos os meios de comunicação nos dizem o contrário. Aquele que não busca a todo custo alcançar as estrelas soa como um fracassado, ainda que baste a ele admirá-las de longe. A mídia tornou fama sinônimo de sucesso; e o sucesso equivale-se a felicidade.
         O espetáculo de mau gosto e a ausência de limite generalizada são efeitos desta confusão. O sonho de brilhar pode ser motivador, mas também perigoso. Se desprezarmos o ordinário, o corriqueiro, nunca alcançaremos o extraordinário. Ao eliminarmos um, fatalmente eliminamos o outro. Seria extremamente salutar separamos notoriedade de contentamento. A real satisfação prescinde de alardes.
   Difícil tarefa, já que nem com Deus podemos contar mais; ele parece definitivamente fazer parte do show business.  A divindade deveria ser singela e não suntuosa.

Abaixo, a minha reflexão poética esculachada...

Acho-me em constante desencontro
No embate entre o sonho e a insônia;
Na inquietação e no compromisso;
No que falo e sinto; o certo, o errado...
Os dois lados das convenções humanas;
E para aliviar o drama aviaram-me
Um Deus nobre, austero e sem face;
Que se mede pela quantia no envelope.  
 -Um suntuoso esculacho!-

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Quanto Vale o Show?


         Finalmente assisti ao filme Florence Foster que no Brasil foi intitulado “Florence – Quem é esta mulher?”. Ele é baseado na biografia de Florence Foster Jenkins, papel protagonizado por ninguém menos que Meryl Streep. Florence foi uma mulher muito rica que fez doações vultosas a casas de espetáculos e teatros; ela patrocinou músicos, diretores, atores... Enfim, ajudou a movimentar a vida artística e social da Nova York dos anos 40.
            O problema é que Florence ficou obcecada com a ideia de se tornar cantora lírica, embora fosse incrivelmente desafinada. Deixando de lado a comicidade do filme (em algumas cenas tem-se a impressão de que Streep irá botar um ovo), ficou patente que o talento é algo que pode ser comprado como qualquer mercadoria. Tudo é possível quando se tem o dinheiro para pagar- inclusive amor verdadeiro, segundo Nélson Rodrigues.
Florence comprou os dois. Tanto a sua inusitada carreira quanto a dedicação de um incansável marido. O talento é algo relativo, afinal, quem o define? É a mensagem do filme. Quem diz o que é bom ou ruim em um determinado assunto está suscetível a aplicar mais brandura ou rigor de acordo com as circunstâncias e os seus próprios interesses. E nem sempre os nossos interesses são nobres ou justos. Aliás, justiça cega só se vê em estátuas.
Não creio que este fato elimine o talento genuíno, mas, entre nós impera a imparcialidade.  Em alguns casos quem julga o talento sequer possui conhecimento ou sensibilidade suficientes para reconhecer uma habilidade especial. No geral, contentamo-nos com porcarias, até porque são muito mais fáceis de serem consumidas.
           É por isto que livros de autoajuda pra lá de questionáveis que prescrevem a felicidade (mas, o que é a felicidade?); a liberdade (de novo: o que é ser livre?), costumam vender mais que grandes pensadores. Estas chatices batidas à exaustão são como um prato de miojo para o paladar daqueles que desconhecem o sabor de uma boa massa caseira. 
O filme é bom, não porque traga uma mensagem nova, ou porque nos reporte às grandes reflexões, mas, principalmente, por contar com atores e atrizes talentosos, verdadeiramente talentosos. A atuação de Meryl prova que um talento pode passar-se por um inapto com facilidade, mas, que o contrário, sempre vai depender de alguma benevolência comprada ou da ignorância. As gravações de Jenkins não deixam dúvida.