quarta-feira, 29 de abril de 2020

"E DAÍ?"

                                                    

          Muitos ficaram  surpresos com a resposta do  Presidente Bolsonaro, o messias, quando questionado sobre o aumento das mortes no Brasil em  razão da proliferação do vírus-Covid-19, eu não.
           Para mim, ele vem dizendo “E daí?” muito antes da sua eleição.  E daí que ele tenha prestado homenagem a um ex- torturador...Ele só torturava comunista, gente! E daí que o Estado seja laico? O critério de escolha do próximo Ministro do Supremo Tribunal Federal será o religioso, aliás,  “terrivelmente cristão”. Nunca é muito enfatizar que para o messias "cristão" é sinônimo de evangélico, e, “terrivelmente cristão”, pode ser traduzido como a serviço da “turma” que o apoia.
          E daí se o Presidente incentiva aglomerações com a sua presença, inclusive em manifestações que pregam o fim dos pilares constitucionais? E daí que ele tente, reiteradamente, se utilizar das instituições para livrar os seus familiares, cupinchas e a si próprio de investigações? E daí?...
         Esta é a pergunta que o messias mais tem feito  nos últimos meses, isto não é novidade; isto não é pior do que seus antecessores disseram; o PT com seu esquema de corrupção disse o mesmo; Collor de Melo nos disse o mesmo, isto não vem ao caso... O que importa é o que vão dizer os brasileiros, como iremos responder.
          Temos a obrigação ética e moral, e para quem acredita em Deus, religiosa, de dizer algo, de dar uma resposta toda vez que um dos nossos representantes age de modo absolutista. O “L´etat c’ est moi” pertence aos séculos XVII e XVIII. O Estado somos todos nós! E a nós caberá responder ao messias e a qualquer outro que afronte as regras do jogo, quando sem a menor parcimônia nos perguntarem: “E daí?”

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Sobre O Essencial...FELIZ 2020!

Talvez a liberdade seja a nossa maior utopia, mas ela é  uma das poucas coisas pela qual se vale a pena  lutar; no mais é o tempo nos dando e tirando as coisas... 

Desejo a todos um FELIZ 2020! Com o máximo de liberdade possível...
Liberdade de Ser;
Liberdade de Não Ser;
Liberdade de Buscar;
Liberdade de Parar;
Liberdade de Falar;
Liberdade do Silêncio;
Liberdade de Crer;
Liberdade de Não Crer;
Liberdade de Expressão!
Liberdade, para que sejamos menos estranhos uns aos outros.

 
"Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo."

(Fernando Pessoa, ele, sempre ele.)

sábado, 30 de novembro de 2019

Sobre o Empuxo e o Repuxo...

As pessoas estão sofrendo com a morte do apresentador Augusto Liberato. Uma fatalidade... Eu ainda sofro por Fernanda Young...A fatalidade da gente é sempre mais fatal que a dos outros.


Há um certo cansaço na vida que só os vivos conhecem; a reticência da morte aos mortos pertence. Os deuses nada sabem sobre cansaço, tampouco sobre o mistério da reticência, porque  são eles mesmos o cansativo mistério. Tudo, a exceção do tempo, é um sonho.  E há sempre um deus indiferente assistindo-nos correr e dormir; e há sempre flores  colorindo indiferentes a vida e a morte.    


Patrícia, des idées fatales

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Sobre Velhice e Hipocrisia



A velhice tem um lado "B" que a maioria prefere ignorar.  Ontem, dia 1° de outubro, comemoramos o dia do idoso. A palavra é um eufemismo para o "palavrão" velho. Existe uma tendência visceral na romantização da velhice, perdendo apenas para o aumento dos procedimentos cirúrgicos que tentam esticar, literalmente, a juventude.  
           Posto o meu conto sobre uma velha. Idosa é a vovozinha...

                                                           VÓ LURDINHA

               Vó Lurdinha mexia a dentadura para lá e para cá; no mesmo ritmo esfregava as mãos, tentando falar através delas. A sobrinha -Vó Lurdinha nunca se casou ou teve filhos- contou que alguém contou que ela era esquisita desde menina, sim, Vó Lurdinha já havia sido menina.       
       Muito antes das mãos enrugadas e inquietas teve dentes de leite que foram substituídos por de coelhos. Ela os perdeu com o tempo.Também perdeu os cabelos, a fome e os seios. O juízo perdeu muito antes de perder a casa, os cachorros e as plantas. Desde muito tomava remédios para os nervos, eram fracos...            
            No abrigo ficava sempre em um canto; resmungava coisas entre uma sambada e outra dos dentes. Não dançava; não cantava; não ria. E nunca recebeu visita. Os sobrinhos se desfizeram dela e dos seus cachorros, mas dividiram o dinheiro da casa e algumas de suas plantas. Planta dá muito menos trabalho que cachorro; que por sua vez da muito menos trabalho que gente. Ainda mais gente velha... 
         Vó Lurdinha tinha um mundo próprio, insondável. Talvez cheio de belas recordações, talvez de mágoas... Vai saber se foi beijada; se apanhou; se teve vestidinho rosa de voal; se existia sonho para além dos olhos embaçados.
            Um dia Vó Lurdinha não acordou para o remédio dos nervos, que vinha sempre depois do da pressão alta, seguido pelo da diabetes. A enfermeira não ouviu os resmungos nem viu o esfregar de mãos. Vó Lurdinha estava morta. O corpo em cima da cama; a Bíblia em cima do criadinho e o copo da dentadura em cima da Bíblia. Era tudo. A síntese de quase noventa anos.
           Ninguém chorou. Ninguém deu falta dela. Desfizeram-se do copo e da dentadura. A Bíblia mudou-se para outro quarto. Só algum tempo depois, Dona Edite, nova moradora do abrigo, herdeira da Bíblia de Vó Lurdinha, encontrou uma foto antiga entre as páginas. Era uma menina sorrindo, dentes de coelho, com um cachorrinho nos braços.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Sobre a Perda...


Toda vez que um poeta morre, morre um pouco da poesia.


Depois que você partiu todo dia é final de domingo;
Comércio fechado; dia de acender velas no cemitério;
Todo dia venta e o céu se veste de cinza nublado;
Depois que você partiu a comédia virou tédio; o sorvete virou água;
As janelas se fecharam; as luzes se apagaram; setembro não veio, não veio maio;
Depois que você partiu o samba ficou triste; Schopenhauer me consola;
Não há cheiro de flores; não há cheiro de algodão doce; 
Não há Rock ou Beethoven ; não há crentes ou ateus;
Meus opostos se fundiram, mas não formaram algo novo;  
Depois que você partiu desejosa deste orbe doente ,
O suburbano nunca foi tão rei;  o chique nunca foi tão povo;
Os cachorros ficaram mais doidos; agosto nunca foi tão agosto;
Tatuagens ,  poemas,  risos e dilemas me dizem:
Que deuses apressam os poetas e poupam os dementes. 

P. Ubert, sem poesia; sem comédia...