terça-feira, 20 de agosto de 2019

Desassossego





O poema Tabacaria de Álvaro de Campos, de longe o meu  heterônimo favorito de Fernando Pessoa, é um dos que mais aprecio. Intimista; de uma inquietação ímpar, um desassossego! Gosto da ideia da farsa, do dominó desajustado com o qual nos vestimos para as convenções. 
Abaixo a minha reflexão quase poética, quase...   

Arrancado do sossego do nada, lançado neste planeta desassossego;
entregue ao instinto da vida vou seguindo; fechando portas invisíveis,
nadando em risos reprimidos, sempre eu, sempre esse espectro mascarado; sempre eu, sempre esse desassossegado.
Fer-nan-do... Que verdade escreveu e  rasgou; que mentira contada te revelou mais do que o verso rejeitado?  Medo, vergonha ou tédio? Diga-me! Revele-me na sua complexidade! Sou o seu leitor, igual, sem remédio, despido no oculto enredo; vestido com aquele mesmo dominó ras-ga-do. O carro segue, o mundo continua girando...E como passa rápido do lado de fora; e como por dentro é uma eternidade...

P. Ubert

domingo, 11 de agosto de 2019

Sobre Quedas

Cair é um verbo irregular; verbos irregulares são os que sofrem alterações, afastando-se do modelo a que pertencem. O ato de cair, a queda, pode ser algo profundamente subjetivo; manter-se lúcido durante ela aumenta as chances de se machucar menos, mesmo quando ocorre de modo concreto.  

procidens*

Caem almas
Caem águas
Caem homens
Caem anjos
Caem planos
Caem tramas
Caem panos
Caem mágoas
Caem sonhos
Caem folhas
Caem prantos
Caem certezas
Caem enganos
Mas,
In pace procedamus

* caiamos 
* Em paz prossigamos 

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Sobre Deuses, Suassuna e Camundongos.



        A maioria das nossas convicções são meras reproduções do pensamento alheio. Pouquíssimos são os que concluem por si mesmos, e, excepcionalmente raros, os que ousam não concluir nada. Ariano Suassuna planejava dedicar seu último romance a Lula, eu dedico meu texto a Bernardo e Bianca.       
            Há causa para tudo,dizem. Um amigo me enviou reflexão bonita sobre as causas das coisas no mundo... Sofrimentos, injustiças, desencontros, desgraças  pelas quais passam todos os que vivem. Segundo ele,  Deus redime tudo! É preciso que exista um Deus que possa dar significado as coisas desalmadas do mundo,  do contrário, por que nasceríamos nele? A este Deus cabe converter  dor em redenção;  injustiça em oportunidade;  desencontro em experiência e  desgraça em esperança.
            E como poderia ser diferente? Como conceber e suportar um mundo sem os seus porquês, sem a resposta que possa como o clarão de um farol guiar à vida indefinidamente. Bastaria-nos a morte, concluiu meu amigo, concordando literalmente com Ariano Suassuna.
            Pois bem, quem sabe, não  nos baste a morte?  Sim, a inexorável finitude. Sem clarões, fogos, respostas, ou ressentimentos do prazer que nunca permaneceu. A Senhora do nada, a única certeza possível, trazendo descanso a tudo que corre inevitavelmente para ela.  O Silêncio absoluto das sensações que apaga as coisas desalmadas do mundo.
             Que conhecimentos sobre os supostos mistérios da vida fazem diferença à vida, se um camundongo pode viver sem porquês. Não seria presunção supor que não podemos? E sobre a morte, que é coisa sobre a qual só se poderia saber morrendo! Sempre me pareceram igualmente sábios o cadáver de um homem e o de um camundongo.
            É uma possibilidade que para a vida baste a morte; já que para a morte basta a vida. E Deus? Ele parece mesmo ser demanda exclusiva da nossa espécie. Camundongos, por exemplo, são cem por cento ateus.                                            
  

segunda-feira, 22 de julho de 2019

22 E Não Sei o Quê...

Depois de muito tempo resolvi postar hoje. Não há nada de especial com o dia de hoje; talvez, porque todos os dias sejam especiais. Enfim...A questão é que hoje é dia 22 e porque gosto do número 22 decidi postar. Há coisas que não tem explicação, um “não sei o quê”...Coisas inacessíveis ao mundo material e concreto do meu 22. 

OBS: Segundo a numerologia o “22” representa o mundo material e concreto. 

Ah, esse não  sei o quê que mexe com a gente; 
Essa exceção de porquês renitentes;
Essa sanha, esse não mais que de repente,
Acordando os sonhos dormentes;
Ah, esse não sei o quê,
Que é a saga do voo  tentado
Emoção que a razão nunca indaga;
Mistério  que impele as asas ao vento...
Mesmo com a queda iminente;
Que mal fizemos a Deus para esse eterno avante?   
Essa saga, essa sanha, esse sonho...
Esse não sei o quê que nos conduz adiante.

Patrícia Ubert...2 Não Sei o Quê 2


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Sobre o Céu...

         Se alguém pedisse a uma criança para descrever o céu provavelmente ela diria que é um local colorido, cheio de brinquedos e doces; um urubu se pudesse dizê-lo certamente afirmaria que deve ser um lugar cheio de podridão. Não importa o quão diferentes sejam o céu e a terra, porque tudo se resume no observador. Por prudência, melhor não esperarmos ver no céu mais do que vemos na terra.
       O meu céu não é eterno, mas breve. Nele, eu procuraria para uma boa conversa Schopenhauer ao invés de santos e anjos. Além de admirar o filósofo detesto fila...

Uma reflexão poética, sem deleite. Sopa e água...  
  
Preciso salvar-me com urgência!
Desatar-me da demência que escraviza.
Abolir as carnes; os vinhos; o desejo;
Ficar cego às aparências e não incorrer na arrogância;
Limitar o ouvido as preces; não ceder às tentações;
Esquecer-me do corpo e dos excessos.
E de resto - do que sobra- salvar-me...
Mas, e se John Donne estava certo?
Estarei salvo em algum céu a deleitar-me com sopa e água,
Trajado em branco e ouvindo harpas?
Um anjo insípido e assexuado!
Para isto nos recomendam tantos esforços?
Preciso salvar-me! Só não sei das virtudes ou dos vícios;
Mas, se na terra somos mais corpo que espírito,
E depois da morte não se sabe,
Por que infligir a cada prazer um sacrifício?

 (John Donne, poeta inglês. Autor  de “Elegia”).

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

"O Rio de Janeiro Continua Lindo..."

O Rio nunca esteve no meu roteiro de viagem. Minha falta de interesse pela cidade maravilhosa é muito anterior à guerra pela posse de suas favelas. Nunca fui com a cara do Rio, com a sua energia excessivamente pulsante. Homens e mulheres sarados demais; sexo demais; samba demais; agora, tiroteio demais. Mesmo para alguém que deteste a rotina, o Rio é muito.
Desde a instalação da família real no Rio de Janeiro, em 1808, a cidade passou a ser a favorita do império. Mais adiante o nosso cartão postal. Um dos poucos motivos para um europeu despencar da civilização para este fim de mundo. O Rio com suas belas matas, mulatas, e jovens prostitutas que saem quase pelo mesmo preço de uma replica do Cristo Redentor.   
          Toda violência que assistimos neste momento: criminosos indo de um lado para outro; incontáveis homicídios em razão do controle do tráfico de drogas; latrocínios; estupros; não é um fato específico do Rio de Janeiro, mas ao contrário, é uma tendência nacional. 
           O Rio só continua sendo a nossa vanguarda, como tem sido desde a vinda da família real; cabendo-lhe retratar e realçar as nossas tendências em primeira mão. Não gosto do Rio, mas justiça seja feita, a cidade não é mais do que um superlativo de como funciona, ou não funciona, quase tudo no país. Portanto, não podemos pegá-la para cristo, depreciá-la como querem alguns.
          Se no passado ela foi eleita pelos nobres portugueses para representar a sua essência, na qual se incluíram os conchavos, maracutaias, a leviandade com o compromisso e a ética, a corrupção escrachada, enfim, a imbecilidade de uma corte fanfarrona, mística e bravateira, hoje, a cidade maravilhosa continua sendo esta mesma vitrine. Ela expõe as mesmas coisas pelos mesmos motivos. A diferença é que a corte misturou-se aos nativos e escravos e agora tem endereço no Distrito Federal.
Aquele abraço! 
   
(Este texto foi motivado pelos episódios de incêndios criminosos direcionados aos ônibus  que faziam o transporte coletivo da cidade do Rio. Na época,  o Bruno me escreveu que peguei pesado. Pode ser, mas ele continua valendo... É que os criminosos pegam muito mais.) 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Segura a Onda...

Só existe uma coisa mais sofrível do que amar sem ser amado: é ser amado por pessoas que não seguram a onda. Embora a nossa espécie seja muito hábil em dissimular sentimentos, as mulheres em especial, alguns deles são difíceis de acobertarmos.  O desejo sexual, a repulsa, a paixão ou o descaso, podem ser facilmente captados.  O que sentimos em nosso intimo revela-se em nossos gestos e expressões corporais, ainda que tenhamos um discurso oposto a eles.
Somos traídos por nossos desejos ou pela falta deles. Assim, observe o outro. Não só o que diz, mas principalmente como diz. As pessoas precisam parar de buscar alguma justificativa para desacreditar o óbvio. Alguns, os mais obcecados, tendem a considerar o menosprezo um tipo de interesse enrustido. Não é!
Menosprezo significa que o outro não dá a minima para você! E vá por mim: quanto mais insistir, pior fica... O menosprezo provavelmente vai virar antipatia. Você será chamado de “chiclete”; de “sem noção”; alcunha dos insistentes de plantão que não fazem ideia do quanto suas investidas são desagradáveis. 
Estes utilizam a renitência como estratégia para alcançar o amor. O amor não se impõe, se conquista! Mas é importante que os meios não sejam indignos para que o fim não seja invalidado. 
Amar sem ser correspondido acontece a todo mundo.Quando constatado, o único remédio é admitir que  é algo natural; que vamos sofrer por algum tempo, mas que há muitas pessoas e possibilidades no mundo. Os nossos sentimentos são nossos! Os outros não têm a menor obrigação de corresponder a eles. É mágico quando dois afetos coincidem, mas é trágico quando forçamos a coincidência.
Não importa quão interessado ou apaixonado você esteja! Se o outro lhe disser reiterados “nãos”, venham eles da boca, dos gestos, do olhar, ou de quaisquer atitudes, ponha a sua viola no saco, dirija-se a uma praia bem animada... Vá surfar! E tente segurar à onda!