quarta-feira, 27 de julho de 2016

Sobre a Verdade: "Quid est veritas?"


A verdade do outro é o nosso ponto cego...

       Creio que a única verdade que me cabe e alcança é a minha; sou do tamanho dela. Não adianta ler, ver, ou ouvir a verdade do outro. Só capto a verdade do outro na minha medida, proporcionalmente a ela. Tudo que não faz parte da minha verdade é mentira. Tudo se constitui a partir do meu egoismo cego.
       Um dos diálogos mais intrigantes que já li é o supostamente ocorrido entre Jesus e Pilatos. Jesus diz: “Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz”. Pilatos, retruca: “Que é a verdade?” Ele não obtém resposta. Ou Jesus silenciou-se porque não sabia, ou, porque sabia, silenciou-se.
    Todas as opções me levam a crer que a verdade não existe, ao menos não a partir do outro. Se Jesus conceituasse a verdade só poderia fazê-lo a partir de si mesmo, logo, inalcançável a Pilatos. Existe também a possibilidade do silêncio ter servido de metáfora; o objetivo foi deixar subentendido que para coisas muito complexas as palavras são insuficientes-.
     É mais provável que Jesus tenha se calado por prudência que por ignorância. Fez bem... Pilatos, melhor ainda. Se a verdade existe para além de nós mesmos o único modo de conhecê-la é questionando.

sábado, 23 de julho de 2016

CONCEITOS E FARSA CULT

O termo intelectual é empregado àqueles que se dedicam as indagações da mente, ou, se preferirem, do espírito humano. A ideia sugere uma contraposição às sensações, inerentes a todos os animais. Até onde sabemos só a espécie humana é capaz de criar e repassar conceitos. Conceitos são sempre perigosos, sobretudo, o conceito de intelecto, já que é o próprio intelecto que conceitua.
O verdadeiro intelectual se ocupa das questões universais, ou seja, menos suscetíveis às convenções do poder transitório- Os seus pensamentos e obras são eternamente modernos. Esta é a razão da humanidade ser carente de intelectuais.
         O que temos de sobra são os peritos em repetição do pensamento alheio. O sujeito repassa o que lê, grosseiramente, ou com algum adorno; além dos peritos em manipulação dos conceitos. Estes, mais nocivos, copiam os pensamentos alheios e ainda os distorcem para que se ajustem as suas necessidades absolutamente temporais. Alguns chamam este pessoal de intelectualóides, não gosto; me reporta a palavra debiloide. Isto em hipótese alguma corresponde à verdade, pois os falsos intelectuais são muito astutos.
No Brasil, eles proliferam... Talvez porque costumam ser simpáticos à esquerda. São CULT. Esse povo reina no meio acadêmico. Geralmente penduram os seus mestrados e doutorados como os militares ostentam as suas medalhas. São especialistas! Intelectuais! Os conceitos lhes pertencem e o título de intelectual os exonera de maiores explicações. Escrevem livros chamando os seus opositores de fascistas, embora cultuem ditadores.
Os nossos intelectuais fakes muito bem pagos para defenderem o populismo de esquerda, encabeçado pelo PT, nos empurra à condição de Venezuela “king size", articulando os conceitos de modo que os favoreça e legitime. Estes “especialistas” escrevem para quem trabalham. São empregados, no sentido mais pejorativo da palavra.
Por esta razão há tantos textos confusos, forçados, manipulados, insistindo na retórica de que a saída de Dilma trata-se de um golpe. Alguns, mais ridículos, dizem que o golpe se deu porque ela é mulher... Misandria total! Estes honoríficos pensadores só tratam do que se relaciona à defesa de suas próprias vantagens.
Eles têm o direito! Respeito a Liberdade de Expressão... Só não me peçam para considerá-los intelectuais ou chamar de obras o amontoado de asneiras que escrevem.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Sobre a Felicidade e o Repuxo

         Quero desabafar. Preciso com alguma urgência escrever o quanto pessoas felizes me dão nos nervos, em especial, quando estou com TPM. Porém, antes de continuar faço duas ponderações: só estou escrevendo porque não achei nenhum texto da Fernanda Young para postar- pessoa por quem tenho muita simpatia. Ela certamente deve ter algo de muita qualidade sobre o tema. Também preciso deixar claro que não me refiro aos que estão felizes em algum momento do dia ou da vida, mas, aqueles 100% felizes em 100% da vida.
Se o feliz em questão tiver voz mansa, piora. Ou seja, felicidade acompanhada de mansuetude agrava mais... Se for feliz, tiver voz mansa e me chamar de querida, meus nervos começam a se contrair, um repuxo só... Se tiver todas essas virtudes e ainda me mandar por nas mãos de Deus no final da conversa, fico à beira do infarto. Como geralmente o infarto não se consuma tendo ao sarcasmo, que normalmente o feliz não entende, ou entende e releva- outra coisa irritante é gente que perdoa tudo.
Pode parecer que eu seja uma pessoa mal-humorada, não sou. Em regra sou divertida. É que acima do humor aprecio a sinceridade, coisa inconciliável com um semblante eternamente feliz. Alguém poderia me perguntar: mas, por que a felicidade do outro te incomoda tanto, ainda que seja “fake”? Pois é... Não incomoda! O que incomoda é o desejo que os 100% felizes tem de contaminar todos a sua volta com a suposta felicidade que carregam.
           O sujeito percebe que você não está para firulas e fica te cutucando com vara curta: “O que você tem? Ânimo!”; “Por que tá tão calada?”; “Vamos sorrir! Você tem um sorriso tão bonito!”. Diante desse bombardeio costumo fazer um esforço sobre-humano para entortar o canto da boca, de modo que pareça um sorriso, para ver se o feliz me deixa em paz. O problema é que os felizes não se contentam com pouco; eles querem no mínimo dos dentes incisivos centrais aos caninos.
        Não tenho nada contra a felicidade, mas admito a infelicidade e o mau humor como estados que fazem parte da minha natureza. Aliás, não tenho nada contra nada desde que haja espaço para tudo . Talvez por esta razão seja avessa ao que as religiões ensinam. A ideia de um soberano imutável me causa receio. Uma das minhas passagens favoritas da Bíblia é quando Jesus deixa de lado os bons modos e parte para cima dos cambistas do templo, virando mesas e distribuindo chicotadas.
Em um mundo praticamente obrigado à felicidade só espero ter garantido o meu espaço para destoar de vez em quando dos sempre sorridentes, animados e elegantes. Como bem disse Fernanda Young aos passarinhos que rondavam a janela do seu quarto: “Vão cantar lá em Fernando de Noronha!”.

sábado, 16 de julho de 2016

GloboNews, Salvação e Respeito

"Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela."

(Não Basta Abrir a Janela- Alberto Caeiro) 
Conheci Amsterdam em 1999, há exatos dezessete anos. A cidade tem uma inexplicável aura de liberdade que me contaminou.  Naquela ocasião, conversando com uma holandesa sobre “tabus”, constatei sua surpresa quando lhe contei sobre o excessivo machismo da sociedade brasileira e o enorme grau de intolerância com homossexuais, bissexuais, travestis e transgêneros. Ela achou difícil acreditar considerando o nosso carnaval. Adorei o raciocínio da moça! Afinal, só mesmo uma sociedade hipócrita como a nossa para conciliar a severa moral cristã com putaria escrachada.
Quase duas décadas depois o Brasil passou a figurar entre os três países que mais matam por intolerância, ligada à condição de gênero e preferência sexual. Ou seja, estamos piorando... A pretexto de seguir os preceitos religiosos, tentamos sufocar a diversidade. Se a natureza nos quisesse iguais, teria nos projetado iguais.
O rebanho do Senhor cresce! Um rebanho arrogante que se julga dono da verdade; que pretende impor-se a qualquer custo. A máxima de que os fins justificam os meios, considerando o fim a salvação, pode fazer do Brasil o país mais homofóbico do mundo ocidental.
 Na contramão dessa imbecilidade, a GLOBONEWS tem apresentado excelentes documentários sobre a condição transexual. São relatos emocionantes de pessoas que têm o sofrimento agravado pelo preconceito. Além do desconforto de ter uma identidade de gênero oposta àquela definida por sua biologia, todos relatam os abusos, as injustiças, a violência física e moral do qual são vitimas por esta condição. Ou seja, o sujeito ao invés de ser amparado é execrado. Essa é a nossa bela moral cristã...
Parabéns ao canal! Enquanto houver espaço para as pessoas se manifestarem haverá resistência à ditadura do comportamento. Continuo contaminada pela liberdade...

(P. Ubert)

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Destino, Livre-Arbítrio e Capitão América


“Haja ou não deuses, deles somos seus servos”
Fernando Pessoa

Ando cansada de ouvir noticiários. Desisti! Cansada da Lava-Jato; da palavra propina; dos argumentos no Senado; de moças dopadas. Não tenho mais cabeça para tanto fuzuê. Vou ler gibis... O Brasil dança tonto desde sempre: um passo à frente, dois atrás! Capengando, cai não cai...
A maioria das pessoas acredita em destino. Curioso que a maioria também creia em livre-arbítrio. Talvez tenhamos algum gene especifico ligado à crença. Isto justificaria a nossa tendência em crer, independente do objeto.
 A capacidade de crer é normalmente considerada virtude. O gene nos impeliria à crença, mas, a forma como nos relacionamos com ela vai além. O Brasil é um bom exemplo: quase a totalidade da população crê em Deus; tememos os castigos divinos. No entanto, esta virtude não nos impede de estar entre os dez países mais violentos do mundo.
Somos por formação, exploradores, imediatistas e ressentidos.  Brancos aventureiros, cujo principal objetivo era carregar tudo que estivesse ao alcance, misturaram-se com jovens índias, meninas, que se entregavam por um espelho. E, posteriormente, com negras escravas. A tão romantizada miscigenação brasileira...
Começo ruim, mas a questão é: poderemos mudar a nossa cultura de exploração, que vai de afanar parte de um troco a apropriar-se de bilhões? Do porteiro do condomínio ao Presidente da República todo mundo querendo levar vantagem! Se pessoas tem destino o mesmo deve se dar com países, planetas e sistemas. Será que a sina do Brasil é abrigar pessoas que sucumbem a  exploração desenfreada?  
Seriam os insondáveis passos do destino guiados por nossas escolhas, motivadas pelas circunstâncias e por nosso caráter, ou por fatalidades regidas por vontades metafísicas? Talvez as nossas escolhas definam as nossas fatalidades e mesmo os deuses se curvem a elas... Detesto contrariar Fernando Pessoa... 
Se quisermos mudar a nossa “sina”, precisaremos formar novos brasileiros, com uma nova mentalidade. Único modo de alterar as nossas escolhas.
Por hora, tento apenas trocar os telejornais por Marvel. Exerço o meu livre arbítrio com o Capitão América, só para provocar à esquerda.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Sobre Todas as Coisas...

        Uma pessoa escreveu sobre algo que escrevi: “foi a coisa mais escrota que já li, você é uma sem noção...” Adoro quando acertam sobre mim. Em geral, por ignorância ou gentileza sempre erram. 
       Essa pessoa tem razão. Palavras não servem pra nada, no máximo para marcar reuniões de trabalho. A maioria das coisas, em especial a ofensa, poderia ser demonstrada por grunhidos ou gestos. Escrever poemas então... É o cúmulo da inutilidade! 
      Andar pela praia, escalar uma montanha, abraçar quem se ama , é muito mais que todos os poemas do mundo. É a poesia materializada...

segue outra reflexão "escrota":      

Transformar sentimento em palavras. Inútil... Para que servem palavras, poesia, sentimentos, e todo o resto? Qualquer coisa que se faça é tão nobre quanto embebedar-se.Manter-se integro e sóbrio, ou louco, ou perverso. Que deus ébrio destila estas possibilidades?
O mundo é a dose que o tempo sorve; nós, um gole que a vida cospe indiferente.  E há quem se sinta importante...

Ando às tontas em cordas bambas, para combinar com o país!  

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O Pintor...

Então...Posto um texto que fiz em repudio ao senso comum. Aliás, mais do que senso comum, a igualdade das coisas como sinônimo de harmonia. 


               Aquela era uma cidade verde. Localizada em um país verde. Composta por bairros cujas casas, escolas, igrejas, contratos e impostos eram todos verdes. As pessoas verdes, sempre verdes, eram treinadas para pensar e agir verde. Tudo deveria ser essencialmente verde. Verde claro; verde escuro; verde musgo, quando velhas; verde oliva, quando mortas. Enterradas no cemitério verde; conduzidas verdes plácidas a um Deus verde- acetinado.
  Quando exatamente fora eleita a cor verde ninguém sabia explicar. Mas, por que pensar outras cores se era tão mais fácil seguir o que já estava estabelecido, sacramentado e enverdecido? Ora! Diziam os cultos, o verde é a cor mais adequada; palavra curta, fácil de gastar! É a cor da cura!Diziam os médicos. É a cor da relva, cantavam os músicos... Tudo era tão harmonicamente verde quanto uma mente verde pudesse imaginar.
Um dia, por erro da natureza, nasceu um menino esquisito. Ele nascera todo deformado, colorido! O cabelo de cachinhos amarelos; a pele rosa e macia como pétalas! E os olhos?! Ah! Os olhos eram de um azul tão profundo... Tão infinitamente azuis!
Ao vê-lo os pais sentiram desgosto, mágoa e pena. Levaram na igreja; no curandeiro. Leram livros; viajaram; rezaram; prometeram! E nada surtiu efeito... Pois o menino crescia em graça, cor, e brilho.
-Como criar um filho com tantas cores em um mundo verde? Pintavam-no de verde, mas, sempre havia algum vizinho maldoso que investigava:
- É mesmo verde esse menino?
 Cansado de ficar em casa escondido, o jovenzinho partiu... Ele foi andando pelas ruas verdes, olhando nos olhos das pessoas que se viravam perturbadas. Um velho, já verde-cinza, lhe disse consternado:
- Filho, não faça isso! Sair na rua colorido é muito arriscado!
- O senhor não conhece outro multicor?
- Não vos disse nada, mas, há outro que mora isolado, muito mais sensato, a quem chamam pintor.
O jovem de alma revigorada saiu em busca do pintor. Ele certamente o entenderia; ele certamente aliviaria a sua dor.
 Ele foi se afastando da cidade verde. Deixando para trás toda unanimidade. E na medida em que seguia surgiam infinitas cores. Eram flores, bichos, galhos, rios, compondo paisagens insuspeitadas. As cores eram tão vivas que de repente sentiu-se pálido.
-Então é isso! E enquanto contemplava viu de longe o pintor que procurava.
Porém, antes que dissesse qualquer palavra, o homem virou-se; foi até ele; abriu um largo sorriso; entregou-lhe o pincel e disse:
- Até que enfim um talento! Que bom que veio, eu te esperava!  

(Patrícia Ubert)